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A Europa se fecha atrás de barricadas. é esta a solu??o?

Por Peter Pappert
Aachener Zeitung, 10 de mar?o de 2018

Aachen. Os europeus tornaram-se um pouco indiferentes e a maioria assume que a situa??o dos refugiados ao redor do mar mediterraneo se tenha acalmado. Os responsáveis políticos também n?o querem perturbar essa tranquilidade porque lhes oferece algum tempo para respirar  e ninguém sabe até quando durará essa pausa.

Aqueles que nos governos nacionais e nas autoridades da UE conhecem minimamente os fluxos de fuga e migra??o sabem que se trata de uma tranquilidade superficial e enganadora. A verdade é que quase todos os dias morrem refugiados na sua viagem perigosa para a Europa, em muitos campos de refugiados nos países mediterranicos reinam condi??es  catastróficas. A press?o persiste.

Martin Br?ckelmann-Simon, diretor da Misereor, uma organiza??o de coopera??o para o desenvolvimento com sede em Aachen, esteve em Marrocos no início deste ano e visitou a zona fronteiri?a do enclave espanhol de Melilla. Os refugiados que aqui chegam s?o do Médio Oriente e migrantes dos países da áfrica Ocidental. Eles querem ir para a Europa, esperando poder viver ali uma vida digna e segura. Peter Pappert falou com Martin Br?ckelmann-Simon sobre esse tema e sobre os desafios que daí resultam para os europeus e para os alem?es.


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Dr. Martin Br?ckelmann-Simon (60) come?ou a trabalhar na Misereor em 1985 e, desde 1999, é membro da Dire??o e responsável pela coopera??o internacional da organiza??o católica.


De onde vem esse sonho da Europa como “Terra Prometida”, em que acreditam todos os que vivem em acampamentos no norte de Marrocos e que est?o apostados em chegar justamente a essa "Terra prometida"?

Br?ckelmann-Simon: Isso é, também, uma consequência da globaliza??o. A internet vai se expandindo na áfrica de modo que todo o mundo pode ver como se vive bem na Europa. Além disso, familiares e amigos que já est?o vivendo na Europa, v?o enviando fotos e informa??es. Nas conversas que tive com jovens, muitos afirmaram repetidamente que queriam ir ter com os amigos na Fran?a, na Escandinávia ou na Rússia.

Que imagem têm estas pessoas da sua futura vida na Europa?

Br?ckelmann-Simon: Trabalhar, ganhar dinheiro – com o que quer que seja. Fiquei muito impressionado com a perseveran?a inabalável e a vontade de construir seu futuro, com que estas pessoas carregam todo o sofrimento e miséria, tentando realizar seu objetivo. A viagem pelo Saara é muito arriscada e perigosa e as condi??es de vida lá s?o miseráveis, insuportáveis. Se amontoam em tendas indigentes, expostos ao frio e à chuva, sem nenhuma condi??o de higiene, repetidamente sujeitos a espancamentos ou deporta??es. Quem realmente consegue ultrapassar a cerca fronteiri?a de vários metros de altura no enclave espanhol, corre o risco de ser devolvido à for?a pela Espanha. Apesar de ser uma viola??o dos direitos consagrados na Conven??o Europeia dos Direitos do Homem, isso acontece com frequência.

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Qu?o realista é a esperan?a de chegar à Europa desde Marrocos?

Br?ckelmann-Simon: Há pessoas que o têm conseguido. Assim, a esperan?a é projetada nelas e n?o nos que morreram no caminho.

As pessoas têm consciência do estatuto inseguro que teriam na Europa, se é que conseguem chegar até lá?

Br?ckelmann-Simon: N?o, creio que n?o. Nos campos de refugiados falei com pessoas - também sobre como a cultura de boas-vindas mudou na Europa. Essas notícias ouvem-se, mas n?o s?o interiorizadas. A esperan?a dos migrantes de melhorar o seu destino é mais forte. Todos sabem que muitos morreram. Desde janeiro já foram encontradas 28 pessoas afogadas nas águas ao largo da costa de Melilla - mais do que em todo o ano passado.

Quantos refugiados e migrantes se encontram no norte de Marrocos?

Br?ckelmann-Simon: Nos 40 a 50 campos clandestinos em redor de Melilla s?o provavelmente 4000 a 5000, na grande maioria homens jovens, mas também 20 por cento de mulheres e meninas, muitas com filhos, que est?o particularmente vulneráveis e amea?adas de violência sexual. A percentagem de menores n?o acompanhados está aumentando. Estima-se que, atualmente, haja cerca de 40.000 migrantes ilegais em Marrocos.

Qual é o seu país de origem?

Br?ckelmann-Simon: De toda a áfrica Ocidental, por exemplo da Guiné, do Mali, do Senegal, da Costa do Marfim e do Níger. Cerca de dez por cento provêm do Médio Oriente.

Ninguém pensa em regressar, face a esta situa??o desesperada?

Br?ckelmann-Simon: Para a maioria, isso n?o é op??o. Trata-se também de uma quest?o de vergonha ou de honra. Muitos partiram com grande esperan?a e com o apoio da família ou comunidade. Regressar e n?o ter conseguido chegar à Europa, seria uma profunda humilha??o. Ao visitar estes acampamentos, vê-se a existência humana nua, associada a uma for?a interior impressionante. O fato de aguentarem todas essas priva??es e ferimentos, se levantarem sempre de novo, deveria dar-nos que pensar, na Europa, quando fazemos a nossa política de migra??o. Isso mostra que: por mais altos que sejam os muros e as cercas, por mais eficiente que seja a vigilancia e o controle dos soldados, a longo prazo n?o poderemos resistir à esta for?a interior da esperan?a por um futuro.

Que alternativas existem à gest?o atual de migrantes?

Br?ckelmann-Simon: Precisamos de vias legais. é inútil e errado diabolizar a migra??o; ela é uma constante da história da humanidade. N?o a podemos erradicar. Também na história da Alemanha e até da Europa, a migra??o desempenhou sempre um papel positivo. Ela é um fato histórico. Ela tem de ser gerida, mas nada a vai deter. Por exemplo, deveríamos considerar mais a possibilidade de conceder vistos de trabalho temporários. Nos anos 70 e 80, e até ainda nos anos 90, estes vistos eram concedidos a africanos sem qualquer problema para trabalhos sazonais na Itália ou Espanha. As pessoas vinham e, depois de algum tempo, regressavam para os seus países de origem.

Tal como disse, a Uni?o Europeia faz tudo para tornar a "fortaleza Europa o mais inconquistável possível". Os responsáveis políticos podem presumir que os seus atos têm a aprova??o da grande maioria da popula??o. A Misereor tem apontado para a responsabilidade da Alemanha, que esta está recalcando exitosamente. Tem alguma ideia da percentagem de adultos na Alemanha que sente esta responsabilidade?

Br?ckelmann-Simon: N?o lhe posso dar um número. Apenas noto nos últimos anos, desde que a guerra na Síria come?ou, uma crescente polariza??o da nossa sociedade. Existe um abismo entre os que partilham a minha indigna??o e os que aprovam esta política de isolamento. Estou ciente de que a maioria dos alem?es n?o questiona esta política.

Há algum tempo que as causas da crise migratória do Médio Oriente e áfrica rumo à Europa deixaram de ter grande importancia na Alemanha. Os políticos confiam em que as medidas de isolamento implementadas em 2016 impedir?o uma nova onda de refugiados como a que houve em 2015. Até que medida é isso realista?

Br?ckelmann-Simon: é uma atitude míope. A longo prazo, n?o funcionará. Mais cedo ou mais tarde, todo muro cai, os alem?es deviam saber isso melhor que ninguém. Como parte da família humana, n?o teremos futuro na Europa se acreditarmos que os muros apenas têm de ser suficientemente altos. N?o conseguiremos resistir eternamente à determina??o dos desesperados e aos anseios dos que esperam um futuro melhor.

Quer dizer que atualmente vivemos uma tranquilidade ilusória?

Br?ckelmann-Simon: Sim, é verdade. Esta atitude simplesmente ignora parte da realidade. Mas as coisas n?o ficam menos horríveis, só porque n?o as vemos. E isso n?o só se aplica a Marrocos. A situa??o na Líbia ainda é mais repugnante. As condi??es nas ilhas gregas s?o desastrosas, tal como nos campos de refugiados no Iraque e no Líbano. é terrível, mas n?o o vemos.

Aqui na Alemanha, a grande maioria das pessoas n?o quer saber de refugiados, porque est?o cientes de que provavelmente teriam de sentir-se muito desconfortáveis se olhassem com aten??o. E quem gosta de se sentir desconfortável ou incomodado. é a realidade.

Br?ckelmann-Simon: é a realidade. E é o grande tema da Misereor, desde que foi fundada: o amor ao distante. O mundo n?o termina no fundo do nosso quintal - hoje muito menos do que no passado; mas n?o é fácil manter esta consciência alerta. Durante muito tempo pensávamos que a guerra já n?o nos atingia. Mas a guerra no Médio Oriente veio apanhar-nos devido à sua proximidade geográfica. Na guerra da Bósnia, já nos apercebemos disso. N?o se pode manter o mundo exterior de fora, só porque incomoda e assusta. Esta atitude n?o é sustentável.

Mas é muito comum.

Br?ckelmann-Simon: Sim.

E profundamente enraizada. A preserva??o da nossa prosperidade e da nossa tranquilidade é mais importante para nós do que o sofrimento dos refugiados. Eles nos s?o indiferentes.

Br?ckelmann-Simon: N?o diria isso. Vejo muitas pessoas que se envolvem, dando as boas-vindas a refugiados e preocupando-se com eles, sem serem ingênuas e sem ignorar os problemas de integra??o. Ninguém afirma que é fácil. Mas a alternativa é ainda muito mais problemática. Seria assim: Nós nos defendemos com tudo o que temos e de todas as formas possíveis para proteger a nossa prosperidade e o nosso estilo de vida contra os menos privilegiados. Em última análise, significaria também estar preparado para disparar.

Quem quer isso? N?o obstante, a maioria das pessoas na Alemanha quer manter os refugiados longe. Você n?o pode dizer isso, porque como representante da Misereor n?o se pode permitir fazer uma afirma??o dessas.

Br?ckelmann-Simon: A minha tarefa é dizer: Esta é a realidade. Reconhe?am-na!

Mas a maioria n?o a quer reconhecer.

Br?ckelmann-Simon: N?o posso for?ar ninguém a fazê-lo, mas aproveito todas as oportunidades que tenho para falar sobre o que se passa do outro lado. Espero que, pelo menos, reflitamos as consequências da nossa atua??o: Existe um grande sofrimento nas fronteiras da fortaleza Europa; e ele n?o irá simplesmente desaparecer.

Mas talvez com uma doa??o de 200 euros por ano à Misereor, para assim me livrar de tirar consequências do sofrimento dos refugiados, n?o precise de olhar com tanta aten??o. E ainda por cima fico de consciência tranquila.

Br?ckelmann-Simon: Acredite, isso n?o funciona! O que fazemos n?o visa impedir a migra??o. A coopera??o para o desenvolvimento conforme a praticamos, pretende proporcionar às pessoas uma vida em dignidade e liberdade no lugar onde vivem. Isso implica que com o aumento da autoestima, com a melhoria das condi??es econ?micas, com uma educa??o de qualidade, os horizontes se v?o alargando. Entre as pessoas que desta maneira conseguem melhorar suas oportunidades haverá sempre algumas que partir?o para outro lugar - mas n?o necessariamente para a Europa. Isso é uma quimera. N?o é verdade. O que s?o 40000 migrantes ilegais em Marrocos em compara??o com a popula??o total da UE?

A resposta que lhe seria dada imediatamente é que, certamente, n?o ficaria por aí; se deixarmos entrar estes migrantes,  muitos outros se sentir?o ainda mais motivados a vir para a Europa.

Br?ckelmann-Simon: Outro pap?o! A migra??o ocorre principalmente a nível regional – dentro da áfrica. A grande maioria quer ficar em regi?es com uma cultura e língua que lhes s?o familiares.

Mas isso em nada altera o fato de que há um fluxo de refugiados rumo à Europa. Você acabou de descrever a sua miséria e exortou que n?o fechássemos os olhos à sua situa??o. No entanto, isso n?o tem consequências. A quest?o de fundo persiste, pois que na Alemanha n?o se chegou muito longe com esta mudan?a de mentalidades que faz parte da vis?o da Misereor.

Br?ckelmann-Simon: As rupturas na nossa sociedade est?o a tornar-se mais visíveis. A minha impress?o é que a chegada dos refugiados fez com que o nosso horizonte se tenha ampliado. Recebemos muito mais pedidos de informa??o de escolas, comunidades paroquiais, de grupos comprometidos que querem saber mais sobre as causes de fuga e migra??o. A discuss?o nas Igrejas está em pleno andamento. O Papa formulou muito claramente os desafios éticos que nós, crist?os, enfrentamos.

Mas o Papa Francisco n?o tem poder de decis?o no mundo político.

Br?ckelmann-Simon: N?o sei. é uma quest?o de maiorias.

Exatamente.

Br?ckelmann-Simon: Atualmente, n?o temos a maioria. Mas isso pode mudar.

é realmente t?o otimista?

Br?ckelmann-Simon: Sou um otimista incurável. A Misereor é esperan?a institucionalizada.

De onde vem a sua esperan?a? O Papa Francisco foi muito elogiado - de todos os lados, de todos os países - por sua Exorta??o Apostólica "Evangelii Gaudium", por sua ideia de uma "Igreja pobre para os pobres" e por sua Encíclica "Laudati Sì". E nada aconteceu.

Br?ckelmann-Simon: N?o sei. De que forma surge a política? é um processo moroso que leva tempo. Precisamos de grande f?lego. Vejo que uma parte crescente da popula??o assume este desafio ético-moral. Como queremos viver? Essa é a quest?o. E está sendo debatida, apesar de vivermos em tempos socialmente agrestes. Mas é necessário debater estas quest?es sociais difíceis porque já nos estamos esquivando há demasiado tempo.

Muita gente gostaria de ter a sua confian?a. Será que é exigência profissional ser t?o confiante?

Br?ckelmann-Simon (ri-se): Sou assim. A Misereor é assim. Encontro frequentemente pessoas que nunca desistem, pessoas que se encontram em situa??es realmente miseráveis, que sofrem conflitos violentos e que, mesmo assim, n?o perdem a coragem, embora a sua situa??o de minoria pare?a desesperadora. Elas podem servir-nos de exemplo. Só com perseveran?a se consegue mudan?as.

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Isso lhe dá motiva??o?

Br?ckelmann-Simon: N?o devemos perder a nossa capacidade de nos deixar comover. Tornamo-nos insensíveis. Habituamo-nos às imagens horríveis. O que cinco anos atrás ainda nos teria mobilizado, hoje mal chega a ser registrado. Corremos o perigo de entender como normal o que as imagens da Síria nos transmitem. Porém, n?o é normal. é inaceitável; é errado. N?o podemos simplesmente aceitar isso.

Quanto mais longe s?o os lugares onde as crian?as s?o mortas brutalmente, menos nos comovemos com a sua sorte.

Br?ckelmann-Simon: Pessoas distantes s?o pessoas estranhas; por isso n?o nos identificamos t?o fortemente com elas como com vítimas na nossa vizinhan?a. No entanto, o fen?meno da habitua??o é que é o problema. Quanto mais frequentemente somos confrontados com violência, tanto mais a entendemos como algo "normal". Quanto mais frequentemente o racismo é expresso, tanto mais o aceitamos como normal. Isso é um perigo. Racismo n?o é aceitável, independentemente da frequência com que e por quantas pessoas ele é expresso. N?o se coadune com a Carta dos Direitos Humanos, nem com o Evangelho. Crist?os n?o podem ser racistas e n?o podem ser nacionalistas. Simplesmente n?o dá. Tenhamos cuidado com a habitua??o!

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